Dermatologia

Protector solar: porque é tão importante e o que significam, afinal, os números

sun-protection

Está na prateleira da farmácia, à frente de uma parede inteira de embalagens. FPS 15, 30, 50, 50+, 100. Toque seco, fluido, em spray, com cor, mineral, químico. Para pele oleosa, seca, sensível, com tendência acneica. A escolha que parecia simples — “comprar um protector” — transforma-se rapidamente num exercício de descodificação.

Este artigo é para si. Vamos explicar, de forma clara, para que serve o protector solar, o que significam os diferentes números e como escolher aquele que melhor se adequa à sua pele. No final, saberá exactamente o que procurar e porquê.

Porque é que o protector solar é tão importante?

A radiação ultravioleta (UV) emitida pelo sol é o principal factor evitável de envelhecimento precoce da pele e, mais grave, é classificada pela Organização Mundial da Saúde como um agente cancerígeno comprovado para os seres humanos. A exposição solar acumulada ao longo da vida está directamente associada a:

  • Cancro da pele, incluindo o melanoma — o tipo mais agressivo, cuja incidência tem vindo a aumentar em Portugal e na Europa.
  • Envelhecimento precoce (fotoenvelhecimento): rugas, perda de elasticidade, manchas e textura irregular.
  • Hiperpigmentação e melasma, particularmente difíceis de tratar quando instalados.
  • Queratoses actínicas, lesões pré-cancerosas que aparecem em pele com exposição solar crónica.
  • Queimaduras solares, que aumentam significativamente o risco de cancro cutâneo, sobretudo quando ocorrem na infância.

O ponto essencial é este: o protector solar não serve apenas para os dias de praia. A radiação UV atinge a pele todos os dias do ano, mesmo com céu nublado — até 80% dos raios UV atravessam as nuvens. Está também presente em ambientes urbanos, no escritório junto a uma janela, dentro do carro, num passeio em Janeiro.

UVA e UVB: dois inimigos diferentes

Antes de falarmos de números, é preciso compreender que o sol emite dois tipos principais de radiação ultravioleta com efeitos distintos sobre a pele.

Radiação UVB. Atinge sobretudo as camadas superficiais. É a principal responsável pelas queimaduras solares e tem um papel central no desenvolvimento do cancro da pele. A sua intensidade varia ao longo do dia e do ano — é máxima ao meio-dia e no Verão.

Radiação UVA. Penetra mais profundamente na pele e está presente com intensidade constante durante todo o dia e todo o ano, atravessando inclusive o vidro. É a principal responsável pelo fotoenvelhecimento, mas também contribui para o cancro cutâneo.

Um bom protector solar deve oferecer protecção de amplo espectro, ou seja, contra ambas as radiações. Na embalagem, procure as menções “UVA/UVB”, “amplo espectro” ou o símbolo de UVA dentro de um círculo (norma europeia).

O que significa, afinal, o FPS?

O FPS (Factor de Protecção Solar) é o indicador mais visível em qualquer embalagem — e também o mais mal compreendido. Em termos simples, mede quanto a radiação UVB consegue ser bloqueada pelo produto, quando aplicado na quantidade correcta.

Os valores na prática:

  • FPS 15 — bloqueia cerca de 93% da radiação UVB
  • FPS 30 — bloqueia cerca de 96,7% da radiação UVB
  • FPS 50 — bloqueia cerca de 98% da radiação UVB
  • FPS 50+ — bloqueia mais de 98% da radiação UVB
  • FPS 100 — bloqueia cerca de 99% da radiação UVB

À primeira vista, a diferença entre FPS 30 e FPS 50 parece mínima — apenas 1,3 pontos percentuais. Mas há duas leituras importantes:

  1. Em termos relativos, um FPS 50 deixa passar metade da radiação que um FPS 30 deixa passar (2% contra 3,3%). Em peles sensíveis ou em exposição prolongada, essa diferença é significativa.
  2. Não existe FPS 100% eficaz. Mesmo o FPS mais elevado deixa passar uma pequena fracção de radiação — razão pela qual a reaplicação e as medidas complementares (chapéu, óculos, sombra) continuam a ser essenciais.

Mito frequente: “Quanto mais alto o FPS, mais tempo posso estar ao sol.”

Falso. O tempo de protecção após a aplicação é semelhante entre FPS altos e baixos — cerca de duas horas. Um FPS elevado não dispensa a reaplicação, apenas oferece uma percentagem maior de bloqueio durante esse período.

Que FPS devo escolher?

A Direcção-Geral da Saúde recomenda o uso de protector solar com FPS mínimo de 30, e idealmente FPS 50+ para a maioria das pessoas. As recomendações específicas variam consoante o perfil:

FPS 30 — uso diário urbano

Adequado para o dia-a-dia em ambiente urbano, com exposição solar curta (deslocações, almoço ao ar livre, passeio breve). Indicado para peles morenas ou bronzeadas, sem factores de risco adicionais.

FPS 50 ou 50+ — recomendação geral e exposição prolongada

A escolha mais segura para a generalidade dos portugueses. Obrigatório em dias de praia, piscina, montanha, desportos ao ar livre ou qualquer exposição superior a uma hora.

FPS 50+ obrigatório

  • Crianças (ver secção seguinte)
  • Pessoas com pele muito clara, ruiva, sardas, olhos claros
  • História pessoal ou familiar de cancro da pele
  • Pessoas em tratamento dermatológico (peelings, laser, retinóides)
  • Quem tem melasma, manchas ou tendência para hiperpigmentação
  • Pessoas com doenças autoimunes fotossensíveis (lúpus, por exemplo)
  • Quem toma medicação fotossensibilizante (alguns antibióticos, anti-inflamatórios, diuréticos)

E o FPS 100?

Não é a “super-protecção” que o número pode sugerir. Acima de FPS 50, os ganhos adicionais são marginais (98% versus 99% de bloqueio). Pode ser útil em situações muito específicas, como queratoses actínicas extensas ou exposições de elevada intensidade (alta montanha, neve), mas para a maioria das pessoas o FPS 50+ é suficiente — desde que aplicado correctamente.

Crianças: regras especiais

A pele das crianças é mais fina, mais permeável e mais vulnerável aos danos solares. As queimaduras solares na infância estão directamente associadas a um aumento significativo do risco de cancro cutâneo na idade adulta.

  • Bebés com menos de 6 meses: não devem ser expostos directamente ao sol. A protecção deve ser feita por meios físicos — sombra, vestuário, chapéu de abas largas.
  • Crianças a partir dos 6 meses: protector solar específico para criança, FPS 50+, sempre, resistente à água, aplicado generosamente e reaplicado de duas em duas horas.
  • Evitar a exposição entre as 11h e as 17h, sobretudo no Verão.

Como aplicar correctamente

Mesmo o melhor protector solar do mundo é ineficaz se for mal aplicado. As recomendações clínicas:

  1. Aplique 15 a 30 minutos antes da exposição solar, sobre pele seca.
  2. Quantidade adequada: cerca de uma colher de chá para o rosto e pescoço, e o equivalente a um copo pequeno (cerca de 30 ml) para o corpo todo. A maioria das pessoas aplica apenas um terço do necessário — e fica, na prática, com um terço do FPS indicado.
  3. Reaplique de duas em duas horas, e sempre após nadar, transpirar muito ou secar-se com uma toalha.
  4. Não esqueça as zonas mais “esquecidas”: orelhas, nuca, dorso dos pés, lábios (use protector labial com FPS), couro cabeludo nas zonas com menos cabelo.
  5. No rosto, aplique antes da maquilhagem. Os produtos com FPS na maquilhagem não substituem um protector solar dedicado.

Tipo de pele: como afinar a escolha

Para além do FPS, a textura e a formulação do protector devem adequar-se ao seu tipo de pele:

  • Pele oleosa ou com tendência acneica: procure fórmulas em gel, gel-creme ou fluido, com indicação “oil-free” e “não comedogénico”.
  • Pele seca: prefira texturas em creme, com ingredientes hidratantes como ácido hialurónico, glicerina ou ceramidas.
  • Pele sensível ou reactiva: opte por filtros minerais (óxido de zinco, dióxido de titânio), que actuam como barreira física e são geralmente mais bem tolerados.
  • Pele com melasma ou manchas: prefira protectores com cor, que oferecem protecção adicional contra a luz visível — uma das principais responsáveis pela hiperpigmentação.

Quando consultar um dermatologista?

A prevenção é a melhor ferramenta, mas há sinais que justificam uma avaliação profissional:

  • Sinais novos ou alterações em sinais existentes (forma, cor, tamanho, contorno)
  • Manchas escuras que aparecem ou se intensificam
  • Lesões que não cicatrizam após várias semanas
  • Pele áspera, escamosa ou avermelhada de forma persistente em zonas com exposição solar crónica (rosto, mãos, antebraços)
  • História familiar de cancro da pele

A observação anual da pele por um dermatologista é recomendada para todos os adultos, e particularmente importante para quem tem factores de risco.

Marque a sua consulta na Tellocare

Na Tellocare encontra dermatologistas disponíveis por teleconsulta para esclarecer dúvidas sobre cuidados com a pele, recomendar produtos adequados ao seu tipo de pele e fazer uma primeira avaliação de lesões ou alterações que o preocupem.

A teleconsulta de dermatologia é particularmente útil para:

  • Aconselhamento personalizado sobre rotina de protecção solar e cuidados diários
  • Avaliação inicial de manchas, sinais ou alterações cutâneas (com partilha de fotografias)
  • Orientação sobre tratamento de melasma, acne, rosácea ou outras condições crónicas
  • Seguimento de tratamentos já iniciados

Em casos que exijam exame presencial — dermatoscopia de sinais, biopsias, procedimentos — o profissional orientá-lo-á para o próximo passo.


Cuide da sua pele todo o ano. Marque a sua consulta de dermatologia em tellocare.com/especialidades/dermatologia e fale com um especialista no horário que lhe for mais conveniente.

Este artigo tem finalidade informativa e não substitui a avaliação clínica individual. Para diagnóstico e tratamento de lesões cutâneas, consulte sempre um dermatologista.